Colunista Joice Vancoppenolle: “Não só de cerveja vive a Bélgica”

 

A Bélgica é um país pequeno, porém divido em duas partes culturais, com dois idiomas oficiais (francês e neerlandês) e em sua capital – Bruxelas (capital da Europa), chega-se a falar quatro idiomas – francês, neerlandês, inglês e alemão. Além disso, as ruas do centro da cidade cheiram a chocolate e há bares em cada esquina com cerveja para todos os gostos e bolsos.

Moro nesse país há quase três, mas há cinco que faço visitas regulares como turista e ao longo desse tempo, tenho acompanhado a transformação do clima e a inclinação do país para o mundo da viticultura.

O vinho produzido na Bélgica começa a dar cartas no mercado mundial. Em um país conhecido pela reputada produção de cerveja, alguns especialistas do setor dizem que o aquecimento global explica o progresso do ponto de vista da quantidade e da qualidade produzida.

Mas há outro fator, segundo o distribuidor John Collijs, há cinco anos havia cerca de 80 hectares de vinha em toda a Bélgica, agora já existem 350 hectares. A área é cinco vezes maior e a produção cresceu nessa proporção. Vemos, efetivamente, um progresso nos últimos cinco anos e parece que a tendência vai continuar.

Em 2017, a produção cifrou-se em quase um milhão de litros. Os verões de 2018 e 2019 foram substancialmente mais quentes e com menos chuva do que o habitual para um país do noroeste europeu.

Esses fatores provocam uma colheita precoce e normalmente, a colheita na Bélgica vai da segunda semana de setembro até a segunda semana de outubro, no máximo. No entanto, no ano de 2020, a colheita aconteceu no início de setembro.

A propriedade de Chenoy, perto da cidade de Namur, (região das Ardenas), começou a produzir há 15 anos, e sete dos dez hectares são dedicados ao vinho tinto. O enólogo Jean-Bernard Despatures trabalha com variedades de uva especialmente adaptadas à Bélgica e é muito cético sobre o impacto positivo das alterações climáticas no país.

Jean-Bernard se diz muito cauteloso face a esse argumento porque, em primeiro lugar, não se sabe ao certo se trata-se apenas de aquecimento global. Ou seja, em um ano tudo corre bem porque está calor, como no Mediterrâneo onde todos os belgas sorriem e eu também, mas isso não nos protege de uma forte tempestade súbita com granizo. Vemos que tudo está mudando e agora temos a impressão de que há um aquecimento, mas daqui a 30 anos não sabemos se não irá na direção oposta.

A melhor produção pode ser atribuída a vários fatores, entre os quais o envelhecimento das vinhas e um maior conhecimento de técnicas para as tratar, bem como aos solos.

É preciso ter bom solo, o que é o caso, e boas condições climáticas. Mas é preciso, também, ter bons conhecimentos, que não se improvisam. É preciso conhecer a teoria, mas também ter muita prática. Com esses fatores e o envelhecimento das videiras, inicia-se um ecossistema de vinho belga que não existia há 20 ou 25 anos, porque outrora, a Bélgica estava isolada no mundo do vinho.

Produzir um milhão de garrafas em um país que consome 300 milhões é uma gota de vinho no oceano do mercado belga. A boa notícia é que parece haver condições para conquistar uma maior fatia do mercado.

Tournai, 03/02/2021

Joice Vancoppenolle

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