Abril Marrom: combate à cegueira não pode parar

por Catharine Matos

Em meio à pandemia do novo coronavírus (Covid-19), os cuidados com a saúde em geral não podem parar, inclusive os relacionados aos olhos. Abril Marrom é a campanha realizada esse mês por instituições e profissionais de saúde, dedicada ao alerta do combate à cegueira. De acordo com o Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO), o Brasil possui 1,2 milhão de cegos. São mais de 6 milhões de brasileiros com alguma deficiência visual. As causas são variáveis e, na maioria dos casos, a perda da visão poderia ter sido evitada com prevenção e diagnóstico precoce.

 

Se você perceber perda súbita da capacidade de visão, não hesite em procurar um oftalmologista, mesmo em tempos de distanciamento social em prol da saúde coletiva. Se esqueceu de marcar sua consulta de rotina anual, programe-se para uma visita ao oftalmologista, assim que os atendimentos voltarem ao habitual em sua região, de acordo com as recomendações dos órgãos de saúde. E fica o alerta: não pare tratamentos nesse período sem o conhecimento e orientação do seu médico. Muitas clínicas oftalmológicas estãà disposição para atendimentos emergenciais e orientações a pacientes, inclusive via online, por meio da telemedicina, regulamentada pelo Ministério da Saúde recentemente.

 

É possível evitar  Conforme afirma Dr. Ruy Cunha Filho, médico oftalmologista do DayHORC, empresa do Grupo Opty, 80% das causas de cegueira são evitáveis. “Uma vez detectadas precocemente, tais condições podem ser tratadas em fases iniciais, evitando perdas irreversíveis da visão”, reforça o médico sobre a importância das visitas anuais ao oftalmologista em todas as faixas etárias. Os cuidados começam ainda na maternidade, com o teste do olhinho.

 

As principais patologias que levam a cegueira não-reversível são: glaucoma, retinopatia diabética e degeneração macular relacionada a idade (DMRI). A catarata, importante causa de baixa visão ou cegueira, é reversível com a cirurgia de facoemulsificação. Tais condições afetam principalmente pessoas acima de 60 anos, porém também podem aparecer precocemente em pacientes com fatores de risco. No adulto jovem, as causas predominantes incluem: trauma ocular, descolamento da retina e as doenças neurológicas e degenerativas, como a neurite óptica.

 

“As principais causas de cegueira e deficiência visual em adultos e idosos estão associadas ao envelhecimento da população. Independentemente da classe social, a estimativa de cegueira cresce em função da idade, chegando a ser de 15 a 30 vezes maior em pessoas com mais de 80 anos do que na população com até 40 anos de idade”, conta o oftalmologista.

 

Confira mais detalhes sobre as doenças que podem levar à cegueira:

 

  • glaucoma pode ser prevenido pelo controle da pressão intraocular, que quando aumentada representa o principal fator de risco, e também o único modificável. O maior perigo do glaucoma é que se trata de uma doença silenciosa, e não apresenta sintomas em seus estágios iniciais. O paciente perde progressivamente a camada de fibras nervosas do nervo óptico e consequentemente, perde campo visual (a visão vai se degradando a partir da periferia). As consequências do glaucoma são irreversíveis, ou seja, o tratamento visa apenas impedir a sua progressão, porém não restabelece a visão que foi perdida. Por isso é tão importante  detectar e tratar essa doença nos seus estágios mais iniciais. Além do tratamento clínico com colírios, novas opções terapêuticas vêm surgindo para controle da pressão intraocular, como cirurgias minimamente invasivas (implantes) e procedimentos como a trabeculoplastia a laser (SLT).

  • retinopatia diabética pode ser prevenida pelo controle clínico adequado do diabetes, baseado em hábitos de vida saudáveis (dieta e exercícios físicos) e uso correto de medicações, visando o controle da glicemia (nível de açúcar no sangue). Uma vez estabelecida, a retinopatia diabética pode ser tratada de acordo com o estágio da doença. Terapias como fotocoagulação a laser e injeção intravítrea de antiangiogênicos são essenciais para o controle da doença, podendo melhorar os sintomas de perda visual. No entanto, estágios avançados da doença podem levar a cegueira irreversível. De acordo com a Sociedade Brasileira de Diabetes, em 2017 12,5 milhões de brasileiros tinham diagnóstico de diabetes. Este número atinge proporções muito maiores ao considerarmos as crianças e o grande contingente de portadores que não sabem que têm a doença.

 

  • DMRI (degeneração macular relacionada à idade) é a principal causa de cegueira na terceira idade em países desenvolvidos, afetando geralmente pessoas acima de 70 anos. Em sua forma seca (mais inicial e branda), o tratamento, baseado em complementos vitamínicos, é pouco eficaz. Na sua forma úmida, novos vasos sanguíneos se formam na região da mácula e causam sangramento e edema. Essa forma, apesar de mais agressiva, pode ser tratada com uso de injeções intravítreas de antiangiogênicos, que melhoram a visão e controlam a progressão da doença por tempo variável.

 

  • catarata do adulto ou idoso é reversível com a cirurgia. Trata-se da opacidade da lente interna do olho (cristalino), que precisa então ser substituído por uma lente intraocular artificial, com cirurgia. Ela pode aparecer mais precocemente em fumantes, diabéticos, altos míopes, pessoas com alta exposição ao sol, devido ao uso de certos medicamentos, ou após trauma ocular, entre outros fatores. A catarata senil é um processo inerente ao envelhecimento do cristalino.

    Crianças e jovens – De modo geral, de acordo com estudo “As condições de saúde ocular no Brasil 2019”, do CBO, mais da metade das crianças cegas do mundo são cegas devido a causas evitáveis (15% tratáveis e 28% preveníveis). Conforme a estimativa da Agência Internacional de Prevençãà Cegueira (IAPB, em inglês), é possível considerar que no Brasil haja cerca de 29 mil crianças cegas por doenças oculares que poderiam ter sido evitadas ou tratadas precocemente. A diversidade regional brasileira e os diferentes níveis de desenvolvimento socioeconômico sugerem a estimativa de um valor médio de prevalência de cegueira infantil para o Brasil entre 0,5 e 0,6 por mil crianças, de acordo com o estudo do CBO.

    O mesmo relatório mostrou que, no mundo, 500 mil crianças ficam cegas por ano (quase uma por minuto). Muitas morrem na infância, por causa do problema que levou à cegueira (sarampo, meningite, rubéola, doenças genéticas, lesões neurológicas ou prematuridade). A maioria das crianças cegas nascem cegas ou ficam cegas em seu primeiro ano de vida.

    Na infância, os pequenos estão suscetíveis a apresentar catarata e glaucoma congênitos, de difícil tratamento e mau prognóstico visual. Estrabismo e altos graus de ametropias devem ser diagnosticados e tratados precocemente, sob o risco de levarem à ambliopia (visão preguiçosa), irreversível após os 7 anos de idade.

    Entre os jovens, as causas para perda de visão predominantes incluem: trauma ocular (acidentes como “boladas” e outros impactos nos olhos), descolamento da retina e as doenças neurológicas e degenerativas, como a neurite óptica, inflamação do nervo óptico.

    Segundo Dr. Ruy Cunha Filho, devemos ficar atentos também para o ceratocone nessa faixa etária, doença progressiva da córnea que causa deformação e consequente degradação da visão. A maioria (70%) dos paciente com ceratocone são alérgicos e coçam muito os olhos (fator ambiental que leva à progressão da doença). Nesses pacientes, o quadro alérgico deve ser tratado e o hábito de coçar os olhos extinto.

    Existem diversos tratamentos para o ceratocone, como uso de lentes de contato, implante de anel estromal (anel de Ferrara), crosslinking, transplante de córnea. É muito importante o paciente com a doença ser acompanhado pelo seu especialista, realizando periodicamente uma tomografia de córnea, para acompanhar a progressão da doença e definição terapêutica no momento adequado.

    Prevenção, detecção e tecnologias – Para detecção de doenças que afetam a visão, o oftalmologista dispõe de diversos recursos. Um exame oftalmológico completo inclui: anamnese (história do paciente e familiar, antecedentes pessoais, medicamentos em uso), acuidade visual com e sem correção refracional, exame biomicroscópico em lâmpada de fenda, exame de fundo de olho, tonometria (medida da pressão intraocular). Em algumas situações são necessários exames complementares, como exame de campo visual no caso do glaucoma, retinografias com uso de contraste endovenoso e/ou tomografias da retina em casos de retinopatias.

    “A principal causa de cegueira irreversível hoje é uma doença silenciosa, a DMRI, e nesses últimos 10 anos aconteceu uma revolução tanto na tecnologia diagnóstica com tomógrafos de retina e nos equipamentos de angiografia digitais, como no tratamento com medicamentos injetáveis (terapia anti-angiogênica), que permitem evitar a perda de visão e a recuperação em muitos casos que antes eram considerados intratáveis”, conta Dr. Ruy Cunha Filho.

    As tecnologias estão sempre avançando e trazendo não somente novas possibilidades para o combate às doenças que causam cegueira, como também para auxiliar os pacientes com perda visual acentuada. “Há auxílios ópticos de magnificação digital para pacientes com visão subnormal, além de auxílio óptico com interface associada a inteligência artificial para celular que reconhece através da câmera do aparelho o ambiente e o descreve para o paciente com baixa visão”, afirma o médico.

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