Tribunal das redes sociais: como o cancelamento digital pode afetar a vida real?

Nas últimas semanas, muito tem se falado sobre a cultura do cancelamento. Famosos, influenciadores digitais e até mesmo instituições, sejam elas públicas ou privadas, têm sido alvos dos “justiceiros virtuais” – grupo de pessoas que utilizam as redes sociais como uma nova forma de justiça social, simplesmente, por acreditar que algum tipo de comportamento, opinião ou ideologia exposta por personalidades ou empresas na internet sejam ações errôneas ou condutas reprováveis que não são mais aceitas na sociedade.

A psicóloga do Sistema Hapvida, Geane Santos, explica que essas atitudes podem levar à perda de trabalhos, contratos, interferir no convívio familiar e nos relacionamentos, além de causar danos à saúde mental e emocional. “É muito difícil para o ser humano sair de forma repentina do lugar de querido e amado, para assumir uma posição de rejeitado e esquecido. Alguns artistas que enfrentaram essas situações relatam episódios de depressão, ansiedade e angústia”, revela.

Julgar o outro faz parte da essência do homem, no entanto, segundo a especialista, com o advento das redes sociais, onde o contato não é presencial, muitas pessoas acham que são “juízes” ou especialistas capazes de opinar sobre diversos assuntos, sem levar em consideração as consequências que esses posicionamentos, muitas vezes, agressivos e intolerantes, trarão para a vida real de quem está sendo sentenciado. “É fácil criticar e rotular uma pessoa quando estamos por trás de uma tela de computador ou celular. Essa distância permite que o internauta tenha a sensação de poder ditar quem merece estar ou não na mídia”, afirma a psicóloga.

Na vida real, as pessoas são constantemente criticadas e julgadas pelas suas atitudes, comportamentos e estilo de vida, mas o que difere o contexto físico do digital é o autoconhecimento. No âmbito social, há diversos olhares diante de uma mesma situação e   nas plataformas digitais as pessoas acabam sendo influenciadas por um comentário e não tirando suas próprias conclusões. “Nas redes sociais os internautas costumam seguir uma onda, defender e assumir a ideia e o posicionamento de outrem, deixando de lado seu próprio julgamento e maneira de enxergar a vida”, diz Geane.

A psicóloga faz ainda um alerta para os canceladores e os cancelados. “Para quem acha que tem o poder de definir o certo e errado, é importante ter um maior cuidado com o que replica e comenta. É preciso estar aberto para compreender o contexto da história antes de se posicionar na internet. Já para aqueles que foram julgados pelo tribunal da mídia, vale a pena revisar e reavaliar seus comportamentos e ações, para entender qual tipo de imagem está passada para seus seguidores e se realmente corresponde àquilo que querem transmitir”, finaliza.

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