Marighella: filme de Wagner Moura transforma guerrilheiro baiano em herói

Quando Tropa de Elite estreou em 2007, o polêmico Capitão Nascimento vivido por Wagner Moura foi alçado pelo público ao status de herói. Mais de 14 anos depois do longa, o ator e cineasta baiano apresenta, agora por trás das câmeras e com um outro viés de segurança pública, um outro reacionário: o político baiano Carlos Marighella, um dos líderes da resistência contra a ditadura militar brasileira. Após mais de três anos de espera, o longa Marighella finalmente vai estrear em circuito nacional na próxima quinta-feira, 4.

Com direção de Wagner Moura e filmada em 2017, a obra é inspirada na biografia “Marighella: O Guerrilheiro que Incendiou o Mundo”, do jornalista Mário Magalhães e conta a história do guerrilheiro comunista Carlos Marighella (Seu Jorge), morto pela ditadura militar. A trama mostra o político liderando a resistência armada ao lado de Branco (Luiz Carlos Vasconcelos), enquanto tenta escapar de uma perseguição chefiada por Lúcio (Bruno Gagliasso), um delegado (fictício) que age a serviço do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), órgão que era responsável por torturar militantes na época.

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Para começar, a ficha técnica de Marighella chama a atenção antes mesmo de qualquer exibição. O elenco estelar, formado por globais famosos por grandes atuações, conta com nomes como Adriana Esteves, Bruno Gagliasso, Herson Capri, Luiz Carlos Vasconcelos, Humberto Carrão, e claro, Seu Jorge. Assim, o filme não deixa nada a desejar no quesito de boas interpretações, com destaque para Seu Jorge, que brilha na pele do protagonista, e Bruno Gagliasso que faz um policial torturador completamente insano. Humberto Carrão também mostra seu potencial e desperta a curiosidade em vê-lo fazendo mais cinema. A produção ainda é assinada por Fernando Meirelles, que esteve à frente de títulos famosos como Cidade de Deus.

Como Marighella era comunista, o viés do filme é totalmente esquerdista. Mas Wagner não esconde isso: desde o seu início, o longa-metragem assume seu posicionamento político. No entanto, algumas vezes o diretor comete pequenas pieguices ao apresentar as motivações do guerrilheiro. Marighella, como mostra o filme, é defensor ferrenho da luta armada, do “olho por olho, “dente por dente” para combater a ditadura. No filme, ele é retratado como um anti herói, íntegro, que pode ter errado nas escolhas, mas que amava o Brasil..

Quem não nasceu na época da ditadura ou teve pouco contato com imagens do período, consegue sentir a tensão através da fotografia do filme, repleta de tons acinzentados. Em alguns momentos – um deles quando um grande tanque de guerra circula nas ruas do Rio de Janeiro – a obra de Wagner Moura parece até retratar uma distopia digna de contos de ficção, no entanto, a realidade, como ele sempre faz questão de lembrar, foi aquela, repleta de absurdos. Isso se torna ainda mais assustador quando o espectador consegue identificar no filme que se passa na década de 60, posicionamentos e atitudes problemáticas que persistem até hoje.

Embora não entre em tantos detalhes sobre como ocorreu o golpe de 64 e quem foram exatamente os envolvidos na legitimação de poder, a apresentação de Carlos Marighella é certeira e se faz entender ao público que não o conhece. Wagner opta por não se limitar à intelectualidade e refinar a linguagem, por exemplo. Muito pelo contrário, a impressão que se dá é que ele quer atingir principalmente um público jovem ou que costuma passar longe de biografias, e que aprecia ação, tiroteio, perseguição policial e heroísmo. Mesmo com o clima pesado da trama, não faltam alívios cômicos – como em uma cena que armas são guardadas no altar de uma igreja -, frases de efeito – “quem não reage, rasteja”, chega a dizer Marighella em determinado ponto do filme -, e até mesmo uma celebração ao carisma de Seu Jorge e seu vozeirão.

Os movimentos de câmera refletem a intenção de Wagner em fazer uma cinebiografia de ação atrativa ao público, ora sacolejantes nas cenas policiais para tentar criar caos, ora focando na face expressiva e carismática de Seu Jorge, que se contrapõe a violência do personagem de Bruno Gagliasso. Porém, cabe ressaltar: Marighella não é só sobre o guerrilheiro que, por vezes, chega até a desaparecer para dar espaço aos companheiros de luta. O roteiro não falha em desenvolver o arco dos demais personagens e pontos de vistas, sobretudo dos integrantes mais jovens da resistência.

Boicote

Devido ao teor político, ‘Marighella’ sofreu ataques de avaliações negativas em massa antes mesmo de sua estreia. A primeira ocorreu em 2019, quando o site IMDb (Internet Movie Database), que reúne notas sobre produções de cinema, TV, música e games, apagou mais de mil críticas negativas publicadas na página do filme. Na época, a ação foi coordenada por apoiadores do atual presidente Jair Bolsonaro, e a nota média chegou a 2,8 de 10.

Recentemente a página do filme na plataforma teve 45 mil avaliações que geraram a nota média de 3,6. A suspeita é de que as críticas em massa tenham sido feitas por meio de robôs, já que o número é muito alto para um filme que ainda nem foi lançado. Na crítica especializada, o longa fez sucesso e chegou a ser aplaudido no Festival de Berlim, em exibição no ano de 2019.

Outro grande problema foi o adiamento. Previsto para estrear em 2019, o longa foi censurado pela Ancine, segundo Wagner Moura. Na época, a produtora O2 Filmes alegou não conseguir cumprir a tempo todos os trâmites exigidos pela Agência. De acordo com Moura, com isso, a produção do filme perdeu direito a R$ 1,2 milhão do fundo setorial audiovisual somente no adiamento, de novembro de 2019 para maio de 2020. O baiano descartou a possibilidade de lançar o longa em uma plataforma de streaming, tanto pela inviabilidade financeira, quanto pelo desejo de ver seu filme nos cinemas.

Agora que o filme chegou às telonas, é inevitável não associar a mensagem de revolução a determinados contextos do governo Bolsonaro e as eleições de 2022. Um deles é o fato de que o presidente mantém um posicionamento de exaltação a ditadura militar e a personagens problemáticos do regime como o coronel Brilhante Ustra, que chefiou o DOI-CODI, um dos órgãos que praticavam a tortura.

Outro ponto é a censura à imprensa, que tem sido hostilizada no atual governo, e a contraposição entre verdade e fake news. Em tempos em que cientistas precisam rebater autoridades como o próprio Jair Bolsonaro e os grupos de Whatsapp para defender as vacinas contra a Covid-19 das mais absurdas falácias, Marighella mostra que a manipulação de fatos para confundir as massas trouxe consequências perigosas. Por isso, é importante que não só o público de esquerda veja o filme. Conhecer todas as faces de uma história ajuda a evitar que situações prejudiciais para a sociedade se repitam.

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