Colunista Moacir Saraiva: “Uma bolsa diferente”

 

A senhora sacou seu dinheiro dos “aposentos” no caixa do banco e desceu a escada, não era alta, mas havia um patamar em que mudava a direção.  A idosa andava sozinha, desceu lentamente e no degrau abaixo desse descanso, ela sentou-se, como o movimento do sobe e desce era pequeno e o corredor bem largo, ela ficou ali sem que ninguém percebesse sua presença.

Alguns clientes do banco, que subiam e desciam a escadaria, após um tempinho em que ela estava postada ali, perceberam-na, mas devido a correria, apenas a notaram e passaram sem nada falar, pois a idosa estava descansando, esse era o raciocínio desses clientes avexados.

Alguém mais curioso observou que a senhora estava com um vestido largo e longo, além disso, colocara um pano nas pernas, cobrindo-as e fazia movimentos estranhos no cós da saia. No entanto estava com o semblante tranquila, mas, para ele, era algo estranho, os movimentos com as mãos eram lentos e demonstravam uma grande labuta quando elas sumiam por debaixo da saia.

Ele passou a se interessar pela senhora e voltou toda a sua atenção para todos os gestos da idosa. Ela lentamente, olhava para um lado, depois, com menos velocidade ainda, olhava para o lado oposto. Ele não via a bolsa da idosa, pois estava sob o pano que cobria as pernas, mas observou pelos gestos, que ela metia a mão na bolsa e a levava para o cós da saia, e metia a mão com dificuldade na saia. Repetiu esse movimento por três vezes.

Terminados essas ações, ele percebeu que a senhora estava com dificuldade, levou as duas mãos para o cós e se retorceu de um lado para outro e, agora, com o semblante agoniado. Vendo que a senhora não se acalmava, chamou um funcionário do banco a fim de prestar socorro à idosa.

O solícito funcionário, com o crachá do banco, foi até a senhora que continuava sentada e se dirigiu para ela, dizendo:

– Bom dia, a senhora está sentindo algum problema?

A senhora olhou para o funcionário, o encarou nos olhos, depois olhou para o crachá, identificou o nome do sujeito e respondeu:

– Sr. Setembrino, há dois meses seguidos roubaram meu dinheiro. No primeiro, coloquei o dinheiro na bolsa e, ao ir para casa, levaram a bolsa, no segundo, coloquei o dinheiro no califom e aí, também, os ladrões meteram a mão nos meus peitos e me deixaram sem nenhum tostão. Agora, estou colocando meu dinheiro na “calçola”, colado na “francisquinha”. Mas dei azar, quando fui fechar a saia, o cós quebrou e se eu levantar fico só de calçola. Por favor, me ajude e não deixem que me roubem.

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