Colunista Moacir Saraiva: “Sumiço dos Véios”

– Alô, você sabe onde está minha mãe?

A filha ligou para o irmão, aflita. Esta morava perto dos pais, era a mais nova, e tinha ido a casa deles que estava fechada, isso depois de ter ligado para o telefone fixo e o celular dos dois idosos. O fixo chamava até, até e os celulares davam sinal de que estavam desligados.

Este irmão acionou outros dois que moravam em outras cidades, os genros e as noras também foram envolvidos na busca dos idosos.

Um dos irmãos, que morava a 100km, queria vir para a empreitada, ligou para a irmã mais nova e foi taxativo:

– Estou indo, agora, para me encontrar com você.

A irmã, a fim de não atoleimar os que moravam fora, respondeu, com tranquilidade:

– Calma, minha mãe não fará o que você fez, que passou sumido, quase dois dias.

Nestes momentos de adversidade, há os efeitos colaterais e muitas farpas adormecidas acordam com voracidade.

Os irmãos, que moravam fora, acionaram todos os amigos da cidade, nas redes sociais, além deles, os genros e noras também acionaram seus contatos. Foi feita uma cruzada virtual, em que foram usadas todas as redes sociais.

Com o andar do tempo a aflição aumentava nos filhos, genros e parentes, uns foram à delegacia, outros aos hospitais da cidade e nenhum vestígio. Surgiu a ideia de os idosos terem sido sequestrados, pois na cidade era uma prática, mesmo eles não sendo ricos, mas o idoso criava pássaros raros dentro de casa, tudo dentro da lei. Tinha dois canários que a todos impressionavam pelo canto, eram dois canários cujo canto os tornavam cobiçados e muitas propostas, com valores bastante elevados, o idoso já recebera. Outra conjectura para sustentar o sequestro eram as peças que senhora criara com as mãos, uma vez que tinha muita habilidade na feitura de peças de croché, algumas peças de estimação da idosa, já haviam sido cobiçadas por muitas figuras ricas da cidade.

Meio dia e nenhum sinal do casal. A esta altura, um filho e um genro já estavam junto com a irmã mais nova na busca dos véios. Na cidade, três emissoras de rádios, e meio dia, elas foram invadidas pelos aflitos jovens, que preparam um mesmo texto a ser lido nos microfones. Os locutores não

leram as mensagens, mas pediram aos filhos e ao genro para, eles mesmos, usarem os microfones. E o texto lido foi o seguinte, mas antes de lerem, tanto os filhos como o genro choraram, emocionaram os ouvintes, com voz soluçando conseguiram ler:

– “Quem souber do paradeiro de Sr. Ocridalino e da Sra. Pafúncia, por favor comunique-se conosco, pode ligar a cobrar. Pois eles saíram cedo de casa e até agora não deram notícias. São idosos e precisam tomar remédio.”

A notícia correu a cidade toda, pois eram figuras conhecidas e causou uma comoção.

15 horas, os outros filhos chegaram com noras e netos e foram para a casa dos “veios”, a filha mais nova tinha a chave, chegaram outros parentes e todos muito preocupados. Por volta das 16:00, um dos filhos grita:

– Chegou uma mensagem de minha mãe.

A mensagem tinha sido enviada às dez, mas só naquele momento chegara. Além da mensagem dizendo onde estavam, os dois apareciam na procissão de São Francisco e cantando a seguinte música:

Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz. Onde houver ódio, que eu leve o amor. Onde houver ofensa, que eu leve o perdão. Onde houver discórdia, que eu leve a união. Onde houver dúvidas, que eu leve a fé. Onde houver erro, que eu leve a verdade. Onde houver desespero, que eu leve a esperança. Onde houver tristeza, que eu leve a alegria. Onde houver trevas, que eu leve a luz

Foto: repodução

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