Colunista Moacir Saraiva: “Sua ordinária!”

 

por Moacir Saraiva

As redes sociais são uma vitrine de pessoas felizes e bondosas, as fotos de pessoas sorridentes, com sorrisos bem largos em cenários garbosos, perfeitos para mostrar que o sujeito ou a sujeita estão de bem com a vida, estão felizes, muito felizes e sempre felizes.

A moçoila tinha 15 anos e postava somente imagens de felicidade “plena”. Os seus seguidores das redes sociais ficaram surpresos quando ela postou uma foto de luto e proferiu as seguintes palavras:

– Meu vôzinho partiu, eu gostava tanto dele, era um homem tão bom.

Junto com esta postagem, apareceu um comentário que chamou a atenção de todos:

– SUA ORDINÁRIA!

Os amigos acharam estranho, muito estranho, tanto a postagem da moça como o comentário em letras garrafais e em negrito.

O comentário foi feito por um primo, vizinho dela. Esta postagem deveu-se ao descaso que “a sempre feliz” devotava ao avô. O velho com 85 anos, era portador de Alzheimer, ainda em um estágio não muito avançado, mas com muitos lapsos de memória. Na maioria dos casos, idosos nesta situação, ficam abandonados, apenas um parente chega junto, os demais se escondem e, às vezes, fazem cobrança estapafúrdias daquele que está no dia a dia cuidando do idoso.

A “sempre alegre” fizera 15 anos poucos dias antes de o avô morrer, e foi um festão. Ele percebeu o entra e sai de gente na véspera da festa e perguntou sobre o porquê daquela movimentação toda. Alguém o informou do real motivo. Ele desapontado, disse:

Não vão me convidar para a festa de minha neta?

A ideia era essa mesma, a fim de o avô não “envergonhar” os visitantes, pois ele fazia perguntas repetidas, ele sentava sozinho e não interagia com ninguém. Às vezes, falava alto demais, outras vezes ficava emburrado e queria ir para o quarto se recolher, enfim, para evitar estes transtornos era mais conveniente deixá-lo no quarto vendo televisão. A maior defensora desta ideia era a neta aniversariante.

Esta menina mostrou, de fato, como a maioria dos idosos é tratada dentro da família. O idoso é tolerado quando se trata de um idoso com a saúde ainda apta a permitir sua locomoção, que ainda o permita conversar de uma forma normal. Entretanto quando o longevo é portador de alguma enfermidade que o limite a andar ou a conversar, ou com limitações mais graves, estes são tidos como fardos pesados para os parentes e ficam confinados a um quarto.

Assim como o Natal, as redes sociais, muitas vezes, disfarçam as relações, revestindo-as de uma maquilagem para causar boa impressão. E a “ordinária” pontuou muito bem tal prática.

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