Colunista Moacir Saraiva: “Professor, vá pra porra!!!”

                                                                  Para Gigi Cardoso

            A pandemia ainda assolando a humanidade e muitos amigos partiram, nenhum motivado pelo corona, outros sofreram o pão que o diabo amassou, com essa peste, mas sobreviveram. Um ex-vizinho, e amigo, já com seus oitenta e lá vai fumaça foi para outra parte do mundo, com uma porção de doenças e a idade avançada, foi partindo aos poucos até dar o último adeus.

            Era um homem vivedor, gostava de curtir a vida, apesar da idade avançada, mantinha o cabelo preto, bem preto, à custa de produtos farmacêuticos, ainda assim, se orgulhava muito por essa característica, pois, segundo ele, isso o deixava “novinho” e muitas meninas o cortejavam quando olhavam para sua cabeleira. Era um exímio contador de “causos” e também era protagonista de outros, era um poeta, tinha uma memória de elefante, recitava poemas de cordel, uma infinidade de rezas ele as sabia de cor e tê-lo como interlocutor era só alegria.  Este texto, estou dedicando a ele inspirado no que disse Santo Agostinho que tão bem e de forma realista se reportou à morte:

 

 

“A morte não é nada.                                       Não utilizem um tom solene                            
Eu somente passei                                             ou triste, continuem a rir                 
para o outro lado do Caminho.                      daquilo que nos fazia rir juntos.    .

Eu sou eu, vocês são vocês.                             Eu não estou longe,                          

O que era para vocês,                                       apenas estou

eu continuarei sendo                                        do outro lado do Caminho.

 

Me deem o nome                                                Você que aí ficou, siga em frente,                 
que vocês sempre me deram,                            a vida continua, linda e bela                         
falem comigo                                                      como sempre foi.”                                             
como vocês sempre fizeram.                             .

Vocês continuam vivendo

No mundo das criaturas,

eu estou vivendo

no mundo do Criador

………………………………………….

            Fomos vizinhos em 1995. Mas até o ano passado, todos os anos, no dia 13 de junho, ia almoçar com ele, sua esposa preparava uma galinha da terra que somente ela faz com aquele sabor tão especial, e, à noite, eu voltava à sua casa para a reza de Santo Antônio e depois muita dança, com licor, cerveja e alegria.

            Naquele ano, éramos vizinhos, e uma das janelas da casa dele, só era aberta em situações especiais, uma vez que ao abri-la, minha casa ficava devassada, pois se via minha sala e a uma distância muito próxima, muitas casas construídas antigamente apresentavam tais inconvenientes.

            Nos finais de semana ele mantinha um hábito trazido de longas datas, beber sua cervejinha, por vezes, chegava em casa tarde e com cara de quem bebeu um pouco mais além da conta. Em uma dessas noites, já se aproximava das duas da madrugada, nosso amigo, chega e dentro de casa fez um barulho que, para a esposa, foi exagerado. Ela disse, com voz baixa:

            –  Gigi, fala baixo, para não acordar o prof. Moacir.

            Ele olhou para ela e sem dizer nada, abriu a bendita janela e falou bem alto:

            – Prof. Moacir, vá pra porra.

            Na manhã seguinte, sentávamos para beber uma cerveja e rir desse fato.

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