Colunista Moacir Saraiva: “O sujeito azarado”

 

Asclepíades se dizia um sujeito esquecido das graças divinas, tudo para ele dava errado e bota errado nisso. Depois de quase dois anos sem ser convidado para um evento festivo, chegou a pandemia e o sujeito ficou desesperado, pois gostava muito de festas, dançava a noite toda e nada bebia, porque não lhe era permitido por limitações saudísticas.

Nove meses após iniciar o isolamento, as coisas se afrouxaram um pouco e pequenos grupos se reuniam para jogar prosa fora, rever amigos, parentes, enfim os olhos cansados que estavam de olharem para as mesmas pessoas e paisagens, agora, ávidos para enxergarem gente diferente e outras paragens, paulatinamente isso foi acontecendo.

O sujeito parece que atraia desprazeres e, às vezes, respingava em quem estivesse no entorno. Um parente o convidou para uma pequena reunião de chá de bebê, só foi convidado em virtude de o espaço onde a ocorreria o evento ser geminado à casa do azarado. O evento mal começara e faltou luz, um vexame danado pelo fato de a dona não ter pensado nessa possibilidade, nada havia para substituir a luz produzida pela energia elétrica. Logo apareceram burburinhos atribuindo ao azarado o motivo do transtorno vivido naquele momento.

O apagão não foi capaz de causar estragos à festa, pois a luz voltou mais rápido do que se imaginava, mesmo assim, ao se acenderem as luzes, os presentes olharam de forma enviesada para o Asclepíades, jogando sob suas costas o real motivo daquele infortúnio. Logo, logo, o ambiente de normalidade foi retomado e sorrisos apareceram e se ouviam, vozes saindo com gosto, havia muito tempo estavam reprimidas, pois, nessa reclusão em casa, havia poucos ouvintes e os mesmos, ali, com mais gente, a voz se soltava toda serelepe.

Ainda no início, um litrão de cerveja se solta da mão de um dos convidados, ao chegar ao solo, se despedaçou e um pedaço de vidro pequeno e pontiagudo atinge o pé direito de um sujeito a dois metros, o caco de vidro se aloja entre o dedão e o dedo número 2, adivinhem de quem era o pé?

Asclepíades deu um urro e um pulo, espalhando sangue, todos acorreram a ele a fim de prestar-lhe socorro, depois de lavarem o lugar que o vidro se alojou, o sangue não parou de jorrar, não conseguiam ver nem um sinal do objeto estranho e o moço gritando de dor, resolveram levá-lo para o hospital da cidade que não tinha muitos recursos. Era uma cidade do interior e bem pequena. Diante dessa conclusão, o azarado foi logo dizendo:

– Sou tão azarado se eu for para o hospital, em vez de eu ficar curado, pegarei a Covid.

Diante da gravidade da situação, o levaram para que o médico o curasse, ainda que a contragosto do sujeito. Ao ver o quadro, o profissional, mesmo estando em um ambiente precário, só viu uma alternativa para minimizar a dor do sujeito: anestesiou o pé e retirou o caco de vidro. Ao amanhecer a dor fugira, mas o pé estava preto e inchado, mais uma onda de azar do moço, contraiu uma infecção hospitalar. Foi levado para uma cidade com mais recursos e lá ficou internado, após alguns dias no leito hospitalar e lutando para curar da infecção, apresentou febre e dores no corpo, logo tiveram de isolar o sujeito, foi constatado que o dito cujo estava com o vírus do momento: Covid.

O sujeito piorou, ficou entubado, mas após três semanas se recuperou tanto da infecção como também da COVID e voltou para casa, magro, desfigurado, mas vivo. Ficou com algumas sequelas que desaparecerão com medicação e exercícios.

Ao chegar em casa, sendo carregado pelos outros, disse:

– Qual o próximo desacerto, meu Deus?

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