Colunista Moacir Saraiva: “O misterioso morre misteriosamente”

O sujeito perambulava pelas ruas ganhando a vida de uma forma inusitada, talvez seguindo a prescrição cristã, Jesus em um dos evangelhos diz grosso modo que o homem não deve se preocupar, afinal, os pássaros não trabalham e comem todo dia. Ou seja, não programar a vida, não viver refém de um planejamento, mas ir vivendo.

Este sujeito vivia assim, saia pelas ruas vendo quem tinha faixas para colocá-las nos portes, nas árvores, nos prédios ou outros lugares menos usuais, sempre aparecia trabalho, talvez desse para ele viver, pelo que se conhecia dele, vivia sozinho e precisava de muito pouco para viver, ganhava para comer e beber, comidas simples e bebidas das mais baratas, então o investimento para sobreviver era baixo.

Do rosto não saia sinais de sentimentos, nem quando encontrava faixas para ganhar seu pão, também não esboçava tristeza ao ser comunicado que não havia material para exercer sua profissão. Falava pouco, muito pouco, sorriso também fugia dele às léguas, era um sujeito misterioso. Esboçava com fervor, apenas no vestir, sua torcida pelo Vitória, pois sempre usava camisa representando o time da Toca do Leão.

Suas roupas também eram comedidas, bermuda, uma camisa e um chinelo, sempre assim. Quando achava trabalho, pegava o material e se dirigia para os lugares solicitados pelo contratante a fim de fixar as faixas. Colocava uma escada no ombro, as faixas, embaixo do braço e carregava, em outra mão, o arame e o alicate. E se entregava ao seu ofício também de forma comedida, sem estardalhaço, sem falar muito, aliás, nada falava, no entanto, executava um trabalho confiável.

Interessante como há estas figuras em toda comunidade, figuras misteriosas, dizem que por opção própria, alguns se entregam às drogas, como o álcool ou outra tão danosa como este e vivem misteriosamente. Trabalham, comem e bebem muito, quando cura da ressaca, vai atrás de outro “bico”, ganha, gasta, bebe e esta é a rotina.

Não se tinha notícia que o misterioso tivesse família, ou melhor, vivesse com alguém, parece que vivia sozinho, infelizmente, pessoas que têm vícios a convivência não é fácil, uma mãe zelosa, na maioria das vezes, suporta, talvez só amor de mãe seja capaz de ver alguém se matando e não poder fazer nada e ficar junto.

Hoje Valença, sente falta do “faixeiro misterioso”, pois misteriosamente ele apareceu morto dentro de um carro abandonado. Morreu sozinho conforme vivia, talvez até tenha morrido como um passarinho já que levava a vida vivendo apenas do que tecia, do que buscava a cada dia, obedecendo ao que está prescrito no evangelho, provavelmente tenha sido enterrado sem que ninguém chorasse sua partida, sem que ninguém o atirasse uma flor sequer, abandonado na vida e na morte.

Vá em paz, faixeiro misterioso.

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