Colunista Moacir Saraiva: “O doutor vai me inzaminar ou me cheirar?”

 

O idoso estava adoentado em plena pandemia, adoecer já é ruim, na pandemia o castigo é maior, principalmente quando se está em quarentena braba em que ninguém pode sair de casa. O senhor estava com os nervos à flor da pele e os filhos queriam levá-lo ao médico a fim de que fosse prescrito um medicamento para que ele pudesse se acalmar, uma vez que ninguém estava suportando o comportamento irrequieto e agressivo do pai.

A princípio o enfermo disse que não ia de jeito nenhum pois, segundo ele, ir a médico é descobrir doenças, e afirmava que estava com a saúde perfeita. Para piorar a situação, o sujeito era viúvo há cinco anos e essa solidão faz um mal danado, ainda mais que ele não quis saber de ninguém, chorava muito a ausência da esposa. Nessas situações de doença, o companheiro ou companheira sabe usar argumentos, sejam eles de que natureza forem, para convencer o parceiro a se acalmar e fazer o que deve ser feito.

O senhor encontrou mais um motivo forte para não ir à consulta, quando soube do valor que iria desembolsar, deu um pinote e foi dizendo que o dinheiro dele não nascia em pé de árvore e que era um roubo o valor da consulta. Remoeu isso por muitas horas. Ele estava tão desnorteado a ponto de dizer que os filhos estavam roubando o dinheiro dele e que a filha, que mais cuidava dele, era a chefe da quadrilha.

A confusão que ele estava fazendo com relação ao dinheiro, fato que não havia antes, levou os filhos a constatarem que o pai precisava de cuidados médicos urgentes, ademais, outros sinais externos foram manifestados por ele com os quais jamais negligenciara, tais como, uma alimentação desregrada e a higiene pessoal.

Com muita paciência, os filhos convenceram-no a ir ao médico, tudo acertado, havia ainda uma barreira a superar a fim de ele entrar no veículo e ser conduzido ao consultório, há quatro dias seu corpo não via água e a roupa era a mesma, até para dormir não se dava ao trabalho de mudar as vestimentas. Moram em um lugar cuja temperatura é bem elevada, assim há um calor danado, sol forte e se transpira muito.

O pai estava exalando odores que manifestavam todo esse relaxamento com a higiene pessoal e uma situação nova para os filhos. Usaram de várias estratégias para convencê-lo a ir ao banho, mas nenhuma delas funcionou.

O filho mais velho sentou com ele e com muita calma e paciência e amor, disse:

– Papai, temos de ir limpo para o médico, lá o senhor pode até encontrar uma enfermeira bonita e como ficará?

O pai, olhou para o filho com raiva e indignado e respondeu com rispidez:

– O doutor vai me inzaminar ou me cheirar?

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