Colunista Moacir Saraiva: “Histórias da Covid”

 

Antes da pandemia o sujeito dera entrada na papelada para se aposentar e o fez forçadamente, isso porque ele não sabe o que fazer quando o bendito documento liberando-o de suas atividades laborais for publicado. Só vive para o trabalho e a família e, às vezes, muito álcool, não para limpar as mãos, mas para limpar a traqueia e, segundo ele, desencardir as veias todas.

A pandemia chegou e o pânico tomou conta das pessoas, pois não havia remédio, vacinas nem tratamentos e tudo era no ensaio e erro. Se os especialistas demoraram para ir encontrando alternativas que combatessem a peste, imagine na cabeça do povo e ainda mais em pessoas que buscam atrair atenção manifestando problemas de saúde, pois é uma forma de muita gente carente chamar atenção. E esse era o perfil do sujeito protagonista desta crônica.

Assim que a pandemia explodiu, ele via muito os noticiários e ficou em pânico, a empresa o dispensou para o famoso “fique em casa” e ele se isolou e bombardeado com o que os noticiários traziam, se enclausurou dentro de casa, aliás, dentro da alcova, pois, expulsou a esposa do recinto. As refeições e água ela deixava na porta da suíte e ele após borrifar tudo com álcool em gel, pegava. Até o banheiro ele limpava, nunca fizera isso, mas por causa da pandemia ele aprendeu. Usava só o pijama o dia todo e, no fim de semana, ele mesmo se encarregava de lavá-lo, na pia do banheiro e secava no box. Tudo isso para se privar de contactar com qualquer pessoa. Passava o dia vendo tv e, esporadicamente, bebia um pouco, bebida trazida pela esposa, e com essa neurose passou sete meses sem sair do quarto. Sequer fazia ligações para as filhas e netos, pois ele cria que através do telefone o vírus era transmitido.  Mesmo no quarto, usava a máscara e ao final do dia, usando luvas descartáveis, cortava a máscara em pequenos pedaços e os jogava no vaso sanitário.

Durante esse tempo, saia dos aposentos quando a esposa ia fazer compras no mercado ou no açougue, ele passeava pela casa com máscara e limpando as mãos com o álcool em gel a todo momento, não sentava e nem recostava em nenhum móvel com medo de se contaminar.

Ele recebeu as três doses da vacina em casa,  morava em cidade pequena  e os agentes de saúde e a cidade toda tomaram conhecimento desse comportamento “estranho” desse cidadão. Só após o reforço, ele começou a sair, ainda assim, com muito medo e tendo ações estranhas. Comprava algumas peças para seu carro ou sua canoa e, ao chegar em casa, ele tinha um balde bem tampado cheio de álcool em gel e jogava as peças dentro do balde e lá ficavam de dois a três minutos.

Foi ao aniversário da filha, com máscara, primeira festa desde o início da pandemia que se fez presente, e somente a família. Ao chegar, relutou em descer do carro, até desceu, mas ficou distante de todos, inclusive dos netos. Cantou os parabéns com a distância de três metros dos demais e se recusou a tirar a foto com a família.

Ao receber o prato com um pedaço de bolo trazido pela filha aniversariante, o sujeito se afastou ainda mais, e se aproximou do carro, colocou o prato sobre o capô, tirou do bolso o álcool em gel, borrifou nas mãos, nas bordas do prato e no garfo. Em seguida, com o garfo pegou uma fatia do bolo, suspendeu a máscara para descobrir a boca, jogo o pedaço do bolo na boca e desceu a máscara. Dessa forma comeu todo o bolo.

Diante dessa peste desconhecida, cada um reagiu e ainda reage conforme suas crenças e ancorados em elementos idiossincráticos, certamente como essas, muitas outras histórias aconteceram e virão à tona.

 

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