Colunista Moacir Saraiva: “Até depois de morto teu pai nos envergonhou”

por Moacir Saraiva

O sujeito meio roceiro e meio citadino, já com seus 70 anos, as primeiras letras da vida ele as aprendeu na roça, depois foi para cidade. Saiu da roça, mas a roça não desgrudou dele em nada.

E esse catingueiro carregava todos os hábitos culturais trazidos do berço, a forma de falar, de se vestir, de andar, em tudo ele mostrava suas origens. Um homem inteligente, trabalhador e foi forçado a vir para a cidade a fim de colocar os filhos na escola.

Os filhos pequenos, não o atormentavam em nada com relação ao jeito dele ser, mas os pestes cresceram e aos poucos foram assumindo a tirania própria de filhos com relação aos pais idosos. O homem, nunca foi em uma escola, mas sabia ler e escrever, do jeito dele, e dava para entender suas ideias quando as colocava no papel, eram apenas bilhetes curtos para os filhos ou para os netos.
Na fala era repetidamente corrigido pelos filhos, por exemplo, falava: cuma, ao invés de como. E os filhos falavam duro com ele, que só ria, e respondia:

– Falo do jeito que sei e vão prá merda.

Não se intimidava nem com as falas dos filhos, tampouco com as da esposa.
Era bem original na agrestia e isso deixava alguns filhos indignados. No casamento de um deles, todos com paletó, bem arrumados e o velho cismou e foi de camisa de manga curta, alegando o calor exagerado que fazia na época. A esposa, se pudesse, nem tiraria fotos com ele, disse que no dia chorou de raiva, pelo fato de o esposo estar tão mal arrumado. Muito tempo, após o evento, através das fotografias, até ele reconheceu que estava tão diferente de todos os convidados e a esposa se dizia envergonhada por isso.

Ademais, brincava muito com os conhecidos e desconhecidos, até nesta ludicidade a família não via com bons olhos, na fazenda conheceu e recebeu pela primeira vez o namorado de uma neta, na hora do jantar, o rapaz se aproximou da mesa e o senhor se dirigiu ao novato e de uma forma muita séria falou:
– Moço, aqui, primeiro comem os conhecidos e só depois os desconhecidos sentam na mesa.
O rapaz ficou descabreado e a esposa do sertanejo interferiu logo dizendo que se tratava de uma brincadeira.

No seio da família, sua fama era de que “envergonhava” a esposa e os filhos na linguagem, na forma de se vestir, na forma de comer, mesmo sendo um sujeito de um coração de ouro, mas seu berço “enlameava” as relações sociais.

Teve uma morte súbita, morreu por volta das 21 horas na casa de um parente onde estava fazendo uma visita. Neste mesmo dia, à tarde, ele assou umas castanhas de caju, com a esposa, e as quebraram, a mulher, após a operação das castanhas, lavou bem as mãos, ele não estava nem aí, tomou banho se lavou, mas não com o mesmo zelo da esposa, por isso os dedos ficaram pretos com o leite da castanha.

Só muito tempo depois da morte do marido, a esposa desabafou para os filhos:
– Até no dia da morte teu pai nos envergonhou, pois foi enterrado com os dedos das mãos muito sujos, porque quebrou castanha e não as lavou direito.

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