Colunista Joice Vancoppenolle: “Revelação de sabores”

As videiras extraem os elementos do solo e os depositam em cachos de frutas que crescem ao sol. Quando bebemos vinho, bebemos seu local de origem. Os viticultores podam alguns cachos das uvas para ajudar na concentração de nutrientes nos poucos cachos restantes.

Os produtores de vinho selecionam as frutas cuidadosamente, mantendo apenas aquelas que são boas o suficiente para serem consumidas. Elas são prensadas, fermentadas e depois maturadas. Os vinhos são engarrafados na esperança de que os consumidores se apaixonem por eles e os compartilhem com os amigos. Bebam-nos em almoços de família. Guardem algumas garrafas.

Na maior parte do mundo, os melhores produtores são artesãos apaixonados que se importam tanto com a beleza do vinho como com seu comércio. Embora esse seja um denominador comum de país para país, de região para região, os estilos de vinho variam, influenciados pelas pessoas e pelos locais que o produzem.

Bordeaux, na França, sugere reis. Chateaux, descendência e tradição. Prestígio. “Le savoir faire” – saber fazer – talvez essa seja a razão pela qual esses vinhos atinjam preços tão altos. Ou talvez porque eles sejam tão interessantes; elaborados para durar, os melhores tintos se transformam à medida que amadurecem em memoráveis e sofisticadas criações.

Os tintos Pomerol e Saint Emilion transbordam com chocolate amargo, cerejas maduras e creme, bem como os Sauternes com sabor de mel. Vinhos como esses são ainda mais deliciosos quando tomados nos cafés parisienses.

Outros países podem ter mais riquezas, poder, sex appeal, sol brilhante e praias, mas a França tem seus vinhos.

Os vinhos italianos nascem no momento em que são abertos, participam de uma reunião de família e amigos, são cercados de boa comida. Manifestam-se como um acompanhamento e não estão sós. Eles são e sempre serão o óleo que lubrifica as ocasiões sociais. Tem nuances e sabores para harmonizar até em pequenas áreas

em que as condições de vida são as mais árduas, nos mais remotos e abandonados recantos de um país.

Os espumantes proseccos do Vêneto são bebidos com glamour em lugares como Veneza, acompanhados de pequenas cumbucas de azeitonas e castanhas crocantes.

Ao mesmo tempo em que mantém a tradição de seus vinhos, a Itália enfrenta a competição do Novo Mundo; da Califórnia, da Austrália e do Chile, que produzem vinhos frutados, fáceis de serem bebidos em coquetéis e não como acompanhamento de grandes pratos.

A Espanha por sua vez, produz desde vinhos com aromas de morango cobertos com chocolate quente e baunilha da Rioja até os desconhecidos e depreciados Jerez – vinho fortificado com mistura de frutas secas, caramelo e casquinha de laranja.

Os vinhos espanhóis não pretendem ser nada mais que uma taça cheia de pura gratificação. A tradição nesse país é não vender vinhos antes de estarem maduros.

Portugal nos oferece os Tawnies, que brilham através da luz, ricos em aromas de nozes, bem como o aveludado Porto Vintage, produzido em anos excepcionais. O vinho do Porto é a mais conhecida das preciosidades portuguesas, mas o Madeira, produzido na ilha do mesmo nome, é igualmente fascinante.

A Alemanha é subestimada. Certamente, já que o país produz vinhos doces, enquanto a maioria dos consumidores prefere os secos, mas mesmo os mais doces são muitas vezes desvalorizados, quanto ao seu charme, apesar do perfeito equilíbrio, da harmonia e da estrutura.

Os vinhos com açúcar residual são muito doces para harmonizar com a maioria dos pratos e muito secos para as sobremesas. A solução está nos aperitivos. Como cada vez mais as pessoas escolhem beber vinho como coquetel, não há razão para não nos voltarmos para a Alemanha. Eles ganham da combinação Coca-Cola e rum.

A Nova Zelândia, o Canadá, a Califórnia, a Austrália, o Chile, a Argentina, a Hungria e todas as áreas vinícolas têm uma história para contar. E cada produtor de vinhos trabalha com o mesmo objetivo –

oferecer um prazer genuíno. Aqui, um brinde a cada um deles.

“Na água você vê o reflexo do seu rosto. No vinho, o reflexo da alma do outro.”

Provérbio francês

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